quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carta nove à Apolo

Tantas coisas pra dizer, Apolo, que o fluxo da consciência fustiga o foco narrativo.
Com o tempo tornei-me um atleta de tanto correr das chibatadas prometidas pelo pai de meu pai.
Nesses dias, conversar era a última coisa que queria. Passava o dia todo brincando de bola na rua para não ver a face envelhecida cheia de ira.
Este drama permaneceu por anos, eu na rua desejando outra vida, a liberdade silenciada entre soluços e lágrimas.
Certo dia, ao se deitar, meu avô perdeu a fala, e toda sua agressividade faleceu diante de sua agonia.
Implorando o alívio, por aquele sangue cruel e impiedoso, a morte veio lhe tirar a vida e carregou consigo parte da "minha" angústia.
Como em um vídeo, assisto a este drama de minha infância em uma posição mais confortável.
A vida continua a mesma, Apolo, o que mudou foi aquilo que desejei continuar a ser.
Hoje sigo explorando o desconhecido que restou de sonhos e imaginações.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Oitava carta ao poeta amargo

A punição, Apolo, é o desejo do mais forte que se impõem sobre o mais fraco.
Esta ação primitiva, por vezes se estabeleceu no espaço em que eu vivia quando criança.
Isso era o reflexo dos anseios e conflitos existentes em meio à hostilidade do lar.
Todo real tem seu imaginário, um conjunto de valores além da vontade de um domínio sobre seu território.
Fico me perguntando se o preço atribuído à isto, é representar um certo tipo de autoridade com interesse mais amplo.
Atualmente, estas questões mantém o progresso destas confissões.
Neste cenário, essa espécie de fetiche que me atrai ao passado, encontro o discurso apropriado em defesa de uma ingenuidade equilibrada entre a densidade de sentimentos, refletido no discurso atribuído a uma fase de constante silêncio devido à ameaças.
Os sonhos daquela época eram os desenhos em preto e branco que multiplicaram a distância em dois momentos luminosos; o de estar aqui hoje narrando esses desencantos e a compreensão singular dos momentos em que sobrevivi a cada ataque de ira e hostilidade.
Não há homens nesta platéia, Apolo, somente eu e você conhecemos os personagens deste grupo de pessoas que tem parentesco entre si.
Ironia ou não, o coração materno de amor tirânico, reduziu minhas expectativas quanto aos desejos múltiplos, frustando meus objetivos.
Melhor do que revelar esta passagem íntima é intensificar um experimento de hábitos que me despertaram para a vida adulta.
Como o diário de uma imaginação que agoniza, mas que insiste em narrar suas impressões, rendo-me temporariamente ao cansaço das horas.
Voltarei a lhe escrever, pontuando nossa trajetória.    

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sétima carta

No momento em que escrevo esta carta, Apolo, me encontro em uma sala, trancado, rodeado de coisas que adquirimos com o passar dos anos.
Demorou muito tempo para que as circunstâncias nos unisse novamente.
As vezes a gente pensa que está escrevendo bobagem e só conseguimos acentuar as desconfianças.
Quando há indícios que afirmam isto, procuro me distanciar e respeitar nossa consciência. 
Este é o ponto em que não consigo transmitir nada. São horas que prefiro me calar à concluir parte daquilo que conheço da minha infância.
Mesmo que um dia eu venha finalizar todo este processo, talvez você será o único que compartilhará de minhas confidências.
Tudo quanto se sabe é que no carregar dessas reminiscências, posso avaliar de maneira mais coerente todo o processo a que fui submetido.
Por tanto, examinaremos juntos todo o conteúdo e os efeitos ocultos exercidos sobre mim.
Esta é a oportunidade que encontrei para denunciar a falta de sensibilidade e afeto que edificou o desconforto que agoniza por tanto tempo aqui, dentro deste peito.
Não sei de onde e nem porque amplio essa pressão sobre meu comportamento, mas este é o processo que ocasionou o nosso reencontro.
Essa viagem sentimental será transmitida e conservada nos vestígios de minha infância.
Por tanto, isso levará um tempo, Apolo, pois dos trinta já passei e hoje reconheço que os adultos podem fazer coisas que as crianças não podem.
Não me resta dúvida, Apolo, sou qualquer um para qualquer um, menos pra você.
Esta noite necessito do silêncio.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sexta carta à Apolo

Esta noite tive um sonho do qual me fez recordar dos dias em que me escondia quando as visitas apareciam inesperadamente tomando conta da casa e ditando regras que acreditavam servir para todos alí.
Somente com a necessidade da identificação dos que alí estavam, aparecia para justificar seja lá o que era. Não sei mais identificar o que viria ser aquele desejo de estar e não estar ao mesmo tempo alí com aquelas pessoas.
Sabe o que é mais interessante, Apolo, recordando deste tempo em que omitia o que sentia?
Que eu ainda guardo resquícios de um medo controlado que luta contra minha consciência.
Não me resta dúvidas agora do quão subordinado eu era à essas pessoas que diziam sentir algum afeto por mim.
Nesta época meu coração estava na ponta de meus dedos.
Embora este que acorda já não mais se submete a certos sentimentos, só o fato da lembrança resistir ao tempo, tenho a impressão de que a odisseia de minha vida ocultou uma época pressionada pela intimidação.
Distante dali, posso afirmar que estabeleci uma batalha que venci pela sabedoria.
Devido ao tempo e o pouco recurso de minha memória, encerro aqui mais uma passagem de uma infância dividida entre o medo e a alegria.
Sem dúvida, é impossível que impeça o rio de correr.
Até breve!